sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Viana Manifest (1994-2014): 20 anos de Bravú

Artigo redigido por Liviao de Marrao para o jornal local A Voz do Agro (http://avozdoagro.com/).

Uma noite no moinho
uma noite não é nada
uma semaninha inteira
essa sim que é moinhada 

Cartaz da XI edição do Castanhaço-rock, recuperado desde o ano 2007 pela associação cultural "O Castanhaço".


Aproveitamos o espaço que nos cede A Voz do Agro para lançar este artigo em que rememoramos a iminência da chegada duma das efemérides fundamentais para a música galega que tem a Chantada no seu epicentro. Como alguns lembrareis por vivência própria e outros sabereis através da transmissão oral e escrita, referimo-nos ao Manifesto de Viana, assinado em 1994 na tasca do Cavalhero no lugar de Viana, e o manifesto mais importante no sistema musical galego moderno. É o nosso Viana's Manifest em referência a aquela música de Muguruza que falava do Karl's Manifest.

Uma pantasma percorre a Galiza, a pantasma do bravú. E, por isso, desde o coletivo Liviao de Marrao fazemos um chamamento a todas aquelas pessoas ligadas com o sistema musical galego e com a cultura da nossa nação para que o 2014 seja um ano centrado na memória do bravú e do Manifesto de Viana, que remate na elaboração dum novo manifesto e numa festa memorável na vindoura edição do festival Catanhaço-rock de Chantada.

Ao tempo, repassaremos a história daquele momento fundacional do bravú para os nossos leitores mais novos. Em primeiro lugar, a etiqueta bravú (em Chantada dizemos bravio) refere-se à carne sem castrar, ao autêntico, ou seja, no eido musical à música feita na Galiza, no rural, em galego e com uma visão nacional, rebelde e contestatária.

O 31 de outubro de 1994 nascia o movimento bravú na já citada taberna da paróquia de Viana, hoje reconvertida em indústria cárnica que oferece, no entanto, ainda alguma comida ocasional.. Fazia-o no marco duma edição da primeira época do Castanhaço-rock e subscrevem aquele manifesto bandas hoje míticas: Rastreros de Chantada, que voltaram à atividade e estão elaborando um novo disco; Skornabois de Lourençá; Impresentábeis de Vimianço; Caimán do Río Tea, também novamente em ativo, de Ponte Areias; Bochechiñas; Verghalludos; Yellow Pixoliñas, cuja homenagem o passado ano deu pé a um novo festival em Monforte, o Naúfragos; os Papaqueixos e os Diplomáticos de Montealto da Crunha.

Um feixe de grupo que através de iniciativas como o Castanhaço (que nasceu em 1993 e do que nesta edição se fazem 20 anos da sua primeira edição) se foram conhecendo na era em que não havia Internet. Cada banda tinha as suas influências que lhe deram ao movimento certos elementos comuns (a língua galega, o espírito contestatário...), mas onde cada grupo era um mundo. 

Talvez esse fosse o seu maior mérito. Integrar num movimento a música mais urbana com elementos da música tradicional através do filtro das guitarras elétricas e as letras que falavam do aqui e do agora, letras cheias de retranca e força. The Clash, Kortatu, a munheira, Pucho Boedo, Los Satélites, Fuxan os Ventos, The Pogues, o Cuco de Velhe, o rock radical basco ou La Polla Records também estavam sob a tinta daquele manifesto. 

Daquela juntança deram fé Manuel Rivas e Alberte Casal. Ainda que à literatura quem melhor o transportou foi Santiago Jaureguizar ou Xosé Manuel Pereiro, editor em Xerais da revista Bravú. Precisamente, Pereiro era a voz dum dos precursores do movimento, a banda Radio Oceano.

De Viana saiu o primeiro manifesto bravú... mas de onde vinha aquele termo? Segundo parece o termo atribui-se aos Diplomáticos e mais em concreto a Xurxo Souto. A banda de Montealto em 1991 apresentavam Arroutada Pangalaica e para 1993 aparece o termo bravú – que é como se diz bravio no galego ocidental- a consequência de que ao saírem a Euzkadi e Catalunya ouviram empregar a etiqueta agropop, com a que, folga dizer, para nada se identificavam.

Para Rómulo Sanjurjo o sucesso do manifesto deveu-se à falha de pretensões do manifesto, sem esquecermos a importância que teve a difusão de muitos temas no programa da TVG Xabarín Clube, que marcaram várias gerações de galegas e galegos.

Daquela experiência foram agromando bandas como Xenreira, Ruxe-Ruxe – talvez uma das bandas mais reconhecidas hoje dentro do género alternativo do sistema musical galego, e outras que antes (Zënzar) e depois, por exemplo Machina que se denominaram o seu trabalho como pós-bravú, seguiram e seguirão apostando pela música em galego. Nós dizemos retranqueiramente que fazemos pós-neo-bravú porque as etiquetas afinal são algo artificial e pouco ajustado à realidade, mas é indubitável que nunca existiriam bandas como a nossa sem aquele tremor de terra que teve o seu epicentro numa pequena aldeia de Chantada.  

Uma pantasma percorre a Galiza, a pantasma do rock sem capar, do bravú. Longa vida ao bravú e 1000 primaveras mais para a música em galego!

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